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terça-feira, 28 de abril de 2026

Aterramento Elétrico: Por que sua instalação pode estar em risco mesmo parecendo "normal"

 Você já se deparou com aquela situação que nenhum profissional de elétrica consegue ignorar: a instalação está energizada, os disjuntores não dispararam, nenhum equipamento queimou — e mesmo assim algo claramente não está certo. Choques leves ao tocar na carcaça de uma máquina. Medições de tensão com valores flutuando sem causa aparente. Equipamentos de automação com comportamento errático. Interferências em sistemas de instrumentação. Falhas intermitentes em inversores de frequência e fontes de alimentação. Esse conjunto de sintomas é mais comum do que se imagina, e em uma parcela expressiva dos casos a origem está no aterramento elétrico — mal dimensionado, mal executado ou simplesmente nunca verificado depois de instalado.



O problema é que o aterramento pertence àquela categoria de elementos que ficam invisíveis enquanto tudo parece funcionar. Ninguém nota o condutor verde-amarelo enquanto o sistema opera. Só percebem quando há um acidente, quando um equipamento de alto valor queima por surto, ou quando uma auditoria de segurança expõe o que estava encoberto. Seja você um estudante de Engenharia Elétrica compreendendo os fundamentos, um eletricista que executa instalações no campo ou um Engenheiro Eletricista responsável por projetos e laudos, este é um tema que não admite simplificação.


Por que o aterramento falha silenciosamente

Diferentemente de um curto-circuito ou de uma sobrecarga, que provocam atuação imediata dos dispositivos de proteção, a falha no aterramento é insidiosa. A instalação continua operando, os equipamentos funcionam na maior parte do tempo, e os problemas aparecem de forma intermitente ou acumulada ao longo do tempo. Isso acontece porque o aterramento não é um elemento ativo do circuito em condições normais de operação — ele só entra em cena quando há uma falha de isolamento, um surto de tensão ou uma situação de emergência. É exatamente por isso que muitos profissionais negligenciam sua verificação periódica.

O agravante é que erros conceituais no projeto de aterramento são frequentes. Confundir os papéis do condutor neutro e do condutor de proteção, não compreender os esquemas definidos pela norma, subdimensionar eletrodos ou simplesmente instalar uma haste sem qualquer medição são práticas que ainda ocorrem em instalações residenciais, comerciais e industriais. O resultado é uma instalação que parece normal, mas que em qualquer situação de falta à terra se comporta de forma imprevisível e perigosa.


Passo 1 — Identifique o esquema de aterramento conforme a ABNT NBR 5410

O ponto de partida do diagnóstico é identificar corretamente o esquema de aterramento da instalação. A ABNT NBR 5410:2004, que regula as instalações elétricas de baixa tensão em edificações, trata dos esquemas de ligação à terra na seção 4.2. O item 4.2.1 da norma estabelece:

"Os esquemas de ligação à terra são caracterizados por letras cujos significados são os seguintes — primeira letra (relativa ao sistema de alimentação): T, ligação direta de um ponto ao terra; I, isolação de todas as partes vivas em relação à terra, ou ligação de um ponto ao terra por meio de impedância. Segunda letra (relativa às massas da instalação): T, massas ligadas diretamente à terra, independentemente da eventual ligação à terra do sistema de alimentação; N, massas ligadas ao ponto do sistema de alimentação ligado à terra (em corrente alternada, esse ponto é normalmente o ponto neutro)."

Essa estrutura define os cinco esquemas possíveis: TN-S, TN-C, TN-C-S, TT e IT. No esquema TN-S, os condutores neutro (N) e de proteção (PE) são inteiramente separados ao longo de toda a instalação — é o esquema mais seguro e o recomendado para instalações novas. No TN-C, as funções de neutro e proteção são combinadas em um único condutor chamado PEN, o que é vedado em circuitos terminais e em condutores com seção inferior a 10 mm² em cobre. No TN-C-S, o condutor PEN é utilizado em parte da instalação e separado em N e PE a partir de um ponto definido, geralmente no quadro geral de distribuição. No esquema TT, o neutro da fonte é aterrado e as massas da instalação são conectadas a um eletrodo de terra independente — esquema típico das instalações alimentadas pela concessionária no Brasil. No esquema IT, a fonte é isolada da terra ou conectada por impedância elevada, garantindo que a primeira falta não provoque desligamento, com aplicação em ambientes críticos como salas cirúrgicas e plantas industriais que exigem continuidade operacional.






A adoção incorreta do esquema ou a mistura de esquemas ao longo da instalação sem critério normativo compromete toda a lógica de proteção. Um exemplo clássico: instalar o esquema TN-C-S corretamente na entrada, mas conectar o PE ao neutro em quadros intermediários, criando um PEN não declarado que anula a eficácia dos dispositivos diferenciais instalados a jusante.


Passo 2 — Dimensione o eletrodo de aterramento com base na resistividade do solo

Com o esquema definido, a etapa seguinte é verificar se o eletrodo de aterramento está adequadamente dimensionado. A resistência de aterramento é o parâmetro central e deve ser compatível com o sistema de proteção adotado. A ABNT NBR 5410:2004, no item 5.4.3.2, que trata das condições de aterramento para proteção contra contatos indiretos no esquema TT, determina:

"Para que os dispositivos de proteção atuem eficazmente, a resistência de aterramento das massas RA deve satisfazer a seguinte condição: RA × Id ≤ 50 V, onde Id é a corrente de defeito de primeiro contato à terra, levando em conta as resistências de defeito e de aterramento da instalação. Em locais onde a tensão limite de segurança é de 25 V, a condição passa a ser RA × Id ≤ 25 V."

Isso significa que para um DR com sensibilidade de 30 mA (Ia = 0,03 A) em ambiente seco, a resistência máxima admissível do eletrodo é RA ≤ 50 / 0,03 = 1.666 Ω. Para um DR de 300 mA, o limite cai para 166 Ω. Em instalações industriais com dispositivos de proteção por sobrecorrente — onde a corrente de falta precisa ser suficientemente elevada para atuar o disjuntor no tempo exigido pela norma — o eletrodo pode precisar apresentar resistência inferior a 5 Ω, dependendo da impedância do circuito de falta.

O dimensionamento começa pela medição da resistividade do solo (ρ), expressa em Ω·m. O método mais utilizado em campo é o método de Wenner, que utiliza quatro eletrodos equidistantes alinhados com espaçamento a entre eles. A resistividade é calculada pela expressão ρ = 2πaR, onde R é a resistência lida pelo terrômetro. Solos argilosos úmidos apresentam resistividade entre 20 e 200 Ω·m. Solos arenosos secos podem ultrapassar 1.000 Ω·m. Solos rochosos podem chegar a valores acima de 10.000 Ω·m, situação em que o dimensionamento convencional com hastes verticais se torna inviável sem tratamento do solo.

Para hastes verticais, a resistência é estimada pela fórmula de Dwight: R = (ρ / 2πL) × [ln(4L/d) − 1], onde L é o comprimento da haste em metros e d é o diâmetro em metros. A relação é logarítmica, o que significa que dobrar o comprimento da haste não reduz a resistência pela metade. Para atingir valores baixos em solos de alta resistividade, a estratégia mais eficaz é a instalação de hastes em paralelo, com espaçamento mínimo entre elas igual ao comprimento de cada haste, garantindo que os cones de dispersão não se sobreponham e que a resistência resultante se aproxime de R/n, onde n é o número de hastes. Em casos extremos, o tratamento do solo com bentonita sódica ou sais condutores ao redor do eletrodo reduz a resistividade local e melhora o desempenho do sistema.

Em instalações industriais de maior porte, a malha de aterramento é a solução técnica mais adequada, composta por condutores enterrados horizontalmente formando uma grade reticulada, complementada por hastes verticais nos vértices e nos pontos intermediários. Além da resistência total da malha, o dimensionamento deve contemplar a tensão de passo — diferença de potencial entre dois pontos do solo distantes 1 metro — e a tensão de toque — diferença de potencial entre uma massa metálica e um ponto do solo a 1 metro de distância — garantindo que esses valores estejam dentro dos limites toleráveis para o corpo humano.


Passo 3 — Meça a resistência de aterramento com método e instrumento adequados

A medição da resistência do eletrodo de aterramento é realizada com o terrômetro (earth tester), pelo método das três pontas, também chamado de método da queda de potencial. O procedimento consiste em posicionar o eletrodo em teste (E), um eletrodo auxiliar de corrente (C) e um eletrodo auxiliar de potencial (P) em linha reta sobre o solo. O eletrodo C deve ser posicionado a uma distância mínima de 40 metros do eletrodo E para instalações típicas com hastes de 2,4 m. O eletrodo P deve ser posicionado a 62% dessa distância a partir de E — posição que corresponde matematicamente ao ponto de menor interferência entre os campos de dispersão dos dois eletrodos de corrente, garantindo leitura na zona plana da curva de potencial.

A validade da posição do eletrodo P é verificada deslocando-o ±10% da distância nominal e verificando se a variação nas leituras é inferior a 5%. Se a variação for maior, os eletrodos devem ser afastados, pois os campos de dispersão ainda estão se interferindo. Medições realizadas com eletrodos muito próximos subestimam sistematicamente a resistência real do eletrodo em teste, gerando laudos de aterramento que não refletem as condições reais da instalação.

A medição deve ser realizada preferencialmente em período de estiagem, quando a umidade do solo está no seu valor mínimo anual e a resistividade está no pico. Realizar a medição após chuvas intensas pode mascarar um eletrodo subdimensionado, que apresentará resistência aparentemente aceitável nas condições de umidade máxima, mas insatisfatória nas condições críticas de operação.


Passo 4 — Verifique a continuidade e o dimensionamento do condutor de proteção

Um eletrodo bem dimensionado e com resistência adequada é completamente ineficaz se o caminho elétrico entre as massas dos equipamentos e esse eletrodo estiver comprometido. A ABNT NBR 5410:2004, no item 5.4.2.1, que trata da integridade dos condutores de proteção, determina:

"Os condutores de proteção devem ser protegidos contra deterioração mecânica e química e devem ter continuidade elétrica assegurada. Emendas em condutores de proteção só são admissíveis mediante conectores apropriados, sendo vedada a interrupção por meio de dispositivos de manobra, de proteção ou de monitoração, exceto se esses dispositivos, ao abrirem, simultaneamente desligarem também todos os condutores vivos do circuito."

O dimensionamento mínimo do condutor de proteção é definido pela Tabela 54F da ABNT NBR 5410:2004, cujo item 5.4.2.1 estabelece a seguinte relação com a seção do condutor de fase: quando a seção da fase S é menor ou igual a 16 mm², a seção mínima do PE é igual a S; quando S está entre 16 mm² e 35 mm², a seção mínima do PE é 16 mm²; quando S é superior a 35 mm², a seção mínima do PE é S/2. Esses valores pressupõem que o condutor de proteção seja constituído do mesmo material que o condutor de fase. Para materiais diferentes, a seção deve ser recalculada para equivalência de condutância.

A verificação de continuidade deve ser feita com miliohmímetro ou microhmímetro, medindo a resistência entre o barramento de terra do quadro de distribuição e cada ponto de utilização da instalação. Valores acima de 1 Ω em trechos curtos já indicam problema e merecem investigação. Conexões com terminais oxidados, juntas mecânicas sem torque adequado, condutores emendados com fita isolante sem conector homologado e seções abaixo do mínimo normativo são as causas mais frequentes de alta resistência no percurso do PE. Em instalações industriais, onde os condutores de proteção percorrem longas distâncias e passam por múltiplos quadros e barramentos, a verificação ponto a ponto é indispensável.


Passo 5 — Diagnostique e elimine malhas de terra indesejadas

Em instalações industriais e prediais de maior complexidade, a presença de malhas de terra não intencionais é uma das causas mais frequentes de problemas em sistemas de automação e instrumentação — e também uma das mais difíceis de diagnosticar sem metodologia adequada.

Uma malha de terra se forma quando dois pontos distintos de um sistema estão conectados ao terra por caminhos diferentes, criando um circuito fechado. Qualquer diferença de potencial entre esses dois pontos — provocada por correntes parasitas, indução magnética ou aterramentos em locais com potenciais distintos — resulta em circulação de corrente por essa malha. Essa corrente se soma ao sinal útil em circuitos analógicos de 4-20 mA, causa erros de leitura em sensores de temperatura e pressão, interfere em comunicações RS-485 e pode danificar entradas analógicas de CLPs e sistemas SCADA.

Os caminhos mais comuns de formação de malhas indesejadas incluem blindagens de cabos de instrumentação aterradas em ambas as extremidades, estruturas metálicas da edificação interligando sistemas de aterramento distintos, tubulações metálicas de processo com conexões elétricas em pontos de potencial diferente, e aterramentos de equipamentos de informática conectados ao sistema de aterramento da instalação elétrica sem a devida segregação.

O diagnóstico é feito com alicate amperímetro de alta sensibilidade — resolução mínima de 1 mA — envolvendo cada condutor de proteção com a instalação em plena operação, sem nenhuma falta à terra presente. Em condições normais de operação, o condutor PE não deveria conduzir corrente. Qualquer valor mensurável indica a existência de uma malha. A localização do percurso da malha exige medição sistemática em cada trecho do sistema, partindo do ponto de corrente mais elevada em direção ao caminho de fechamento do circuito.

A correção envolve a eliminação das conexões não intencionais, a revisão do esquema de aterramento e, em casos onde a segregação completa não é possível, a instalação de transformadores de isolação ou filtros de modo comum nos circuitos mais sensíveis. Para cabos de instrumentação, a prática normalizada é o aterramento da blindagem exclusivamente em uma extremidade — geralmente no painel de controle — mantendo a outra extremidade isolada para evitar a formação de malha.


Passo 6 — Equipotencialização: o complemento indispensável do aterramento

O aterramento das massas individualmente não garante a segurança se existirem diferenças de potencial entre partes metálicas simultaneamente acessíveis. Esse é o princípio que fundamenta a equipotencialização. A ABNT NBR 5410:2004, no item 4.3.1, que trata da equipotencialização principal, estabelece:

"Deve ser realizada uma ligação equipotencial principal, interligando entre si as seguintes partes condutoras: os condutores de proteção principais; o condutor de aterramento principal ou o eletrodo de aterramento principal, se acessível; as canalizações metálicas de serviços que adentram o edifício, tais como gás, água e aquecimento central; as partes condutoras estranhas à instalação que adentram o edifício, incluindo, na medida do possível, as armaduras do concreto e as estruturas metálicas do edifício."

Em ambientes industriais, a equipotencialização deve ser estendida a todos os elementos condutores de processo: trocadores de calor, reatores, vasos de pressão, silos metálicos, transportadores, estruturas de suporte de equipamentos e carcaças de motores e transformadores. O condutor de equipotencialização deve ter seção mínima definida conforme o item 5.4.5 da ABNT NBR 5410:2004 e deve ser conectado ao barramento de terra principal por meio de terminais apropriados, com identificação visual conforme padrão normativo.

Em ambientes com risco de explosão — como plantas químicas, farmacêuticas e de refino — a equipotencialização deixa de ser apenas uma exigência elétrica e passa a ser um requisito de segurança de processo, diretamente vinculado à NR 10, cujo item 10.13.6 determina que "nas áreas classificadas, os equipamentos elétricos devem possuir ligação equipotencial e aterramento elétrico".


Passo 7 — Inspeções periódicas e documentação técnica

A ABNT NBR 5410:2004, no item 8.2, que trata das verificações periódicas, estabelece:

"As instalações elétricas devem ser submetidas a verificações periódicas, a fim de verificar se as condições que asseguravam sua conformidade inicial ainda se mantêm, de detectar defeitos ou deteriorações que possam ser perigosos, e de identificar as não conformidades decorrentes de modificações ou ampliações realizadas sem os devidos cuidados técnicos. O relatório de verificação deve indicar a condição da instalação no momento da verificação, as não conformidades constatadas, as medidas corretivas recomendadas e o prazo para nova verificação."

Na prática, instalações industriais devem ter o aterramento verificado e medido ao menos anualmente, preferencialmente ao final do período seco, quando a resistividade do solo está no seu valor máximo e as condições do sistema são mais críticas. Instalações em ambientes com alta corrosividade, salinidade elevada ou presença de correntes parasitas de retorno — como ocorre em instalações próximas a sistemas de tração elétrica — devem ter inspeções semestrais.

O laudo técnico de aterramento deve conter: identificação da instalação, data e condições ambientais no momento das medições, identificação e certificado de calibração dos instrumentos utilizados, metodologia de medição adotada, diagrama unifilar com os pontos de medição assinalados, tabela com todos os valores medidos, análise de conformidade em relação aos critérios normativos aplicáveis e recomendações de correção quando identificadas não conformidades. O laudo deve ser assinado por Engenheiro Eletricista com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no CREA competente.


Resolução

O aterramento elétrico não falha de forma dramática. Ele falha silenciosamente, progressivamente, de maneiras que só se tornam visíveis quando o dano já está feito — um acidente com uma pessoa, a queima de um equipamento de alto valor, a reprovação em uma auditoria de segurança ou uma interdição por parte do Ministério do Trabalho após uma inspeção de NR 10.

O profissional que domina o tema sabe que não basta instalar uma haste no solo e conectar o condutor verde-amarelo. É preciso identificar o esquema normativo correto, calcular a resistência necessária em função do solo e dos dispositivos de proteção, medir com método e instrumento adequados, verificar a continuidade do percurso de proteção ponto a ponto com miliohmímetro ou microhmímetro, equipotencializar todas as massas acessíveis, eliminar as malhas de terra indesejadas e manter um programa de inspeções com documentação técnica rigorosa.

A instalação que não tem laudo de aterramento não tem aterramento comprovado. E instalação sem comprovação técnica é uma instalação sem segurança — independentemente do quanto ela pareça funcionar normalmente.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Correção de Fator de Potência: Entenda a Importância e Como Implementar

A correção do fator de potência é um tema crucial para empresas e consumidores que desejam otimizar o uso de energia elétrica, reduzir custos e melhorar a eficiência dos sistemas elétricos. Neste artigo, vamos explorar o que é o fator de potência, por que ele precisa ser corrigido, os benefícios dessa correção e como implementá-la de forma eficiente.

O Que é Fator de Potência?

O fator de potência (FP) é uma medida que indica a eficiência com que a energia elétrica está sendo utilizada em um sistema. Ele é definido como a razão entre a potência ativa (kW) e a potência aparente (kVA). Matematicamente, o fator de potência é expresso como:

Fator de Poteˆncia (FP)=Poteˆncia Ativa (kW)Poteˆncia Aparente (kVA)

O fator de potência varia entre 0 e 1. Um FP próximo de 1 indica que a energia está sendo utilizada de forma eficiente, enquanto um FP baixo (geralmente abaixo de 0,92) sugere que há desperdício de energia e ineficiência no sistema.

Tipos de Potência

  1. Potência Ativa (kW): É a potência que realmente realiza trabalho útil, como acender lâmpadas, mover motores, etc.

  2. Potência Reativa (kVAr): É a potência usada para criar e manter campos magnéticos em equipamentos como motores e transformadores. Ela não realiza trabalho útil, mas é necessária para o funcionamento desses dispositivos.

  3. Potência Aparente (kVA): É a soma vetorial da potência ativa e reativa, representando a potência total demandada pelo sistema.

Por Que o Fator de Potência Precisa Ser Corrigido?

Um fator de potência baixo pode causar diversos problemas, tanto para os consumidores quanto para as concessionárias de energia. Alguns dos principais motivos para corrigir o fator de potência incluem:

  1. Multas e Penalidades: Muitas concessionárias de energia aplicam multas a consumidores que operam com um fator de potência abaixo de um valor mínimo estabelecido (geralmente 0,92). Isso ocorre porque um FP baixo sobrecarrega a rede elétrica, exigindo mais capacidade de geração e transmissão.

  2. Aumento de Custos: Um baixo fator de potência resulta em maior consumo de energia reativa, o que pode elevar a conta de energia elétrica. Além disso, equipamentos como transformadores e cabos precisam ser dimensionados para suportar a potência aparente, o que aumenta os custos de infraestrutura.

  3. Perdas de Energia: Um FP baixo causa perdas de energia na forma de calor nos condutores e equipamentos, reduzindo a eficiência do sistema e aumentando os custos operacionais.

  4. Sobrecarga de Equipamentos: A energia reativa exige mais corrente elétrica para realizar o mesmo trabalho útil, o que pode levar à sobrecarga de transformadores, cabos e outros componentes do sistema elétrico.

Benefícios da Correção do Fator de Potência

A correção do fator de potência traz uma série de benefícios, tanto econômicos quanto técnicos. Entre os principais, destacam-se:

  1. Redução de Custos: Ao corrigir o fator de potência, é possível evitar multas e reduzir o consumo de energia reativa, o que resulta em uma conta de energia mais baixa.

  2. Melhoria da Eficiência Energética: A correção do FP aumenta a eficiência do sistema elétrico, reduzindo perdas de energia e melhorando o desempenho dos equipamentos.

  3. Aumento da Capacidade do Sistema: Com um fator de potência mais alto, a capacidade dos transformadores e cabos é melhor aproveitada, permitindo a conexão de mais cargas sem a necessidade de investimentos em infraestrutura adicional.

  4. Estabilidade do Sistema: A correção do FP ajuda a manter a tensão elétrica estável, reduzindo flutuações e melhorando a qualidade da energia fornecida aos equipamentos.

Como Corrigir o Fator de Potência?

A correção do fator de potência pode ser realizada de várias maneiras, dependendo das características do sistema elétrico e das cargas envolvidas. As principais técnicas incluem:

1. Instalação de Capacitores

A forma mais comum de corrigir o fator de potência é a instalação de bancos de capacitores. Os capacitores atuam fornecendo energia reativa ao sistema, compensando a energia reativa indutiva demandada por motores, transformadores e outras cargas indutivas.

  • Capacitores Fixos: São usados em sistemas com cargas constantes. Eles são conectados diretamente ao sistema e fornecem uma quantidade fixa de energia reativa.

  • Capacitores Automáticos: São ideais para sistemas com cargas variáveis. Eles ajustam automaticamente a quantidade de energia reativa fornecida, garantindo um fator de potência ótimo em todas as condições de operação.

2. Filtros de Harmônicas

Em sistemas com altos níveis de harmônicas (distorções na forma de onda da corrente elétrica), a instalação de filtros pode ser necessária. Esses filtros ajudam a reduzir as harmônicas e melhorar o fator de potência.

3. Uso de Motores Síncronos

Em algumas aplicações industriais, motores síncronos podem ser usados para corrigir o fator de potência. Esses motores podem operar com um FP unitário ou até mesmo fornecer energia reativa ao sistema.

4. Softwares de Gerenciamento de Energia

Sistemas de gerenciamento de energia podem ser usados para monitorar e controlar o fator de potência em tempo real. Esses sistemas ajustam automaticamente a correção do FP com base na demanda de energia reativa.

Passos para Implementar a Correção do Fator de Potência

  1. Análise do Sistema: Realize uma análise detalhada do sistema elétrico para identificar o fator de potência atual e as cargas que contribuem para o FP baixo.

  2. Dimensionamento dos Capacitores: Com base na análise, determine a quantidade e o tipo de capacitores necessários para corrigir o FP.

  3. Instalação: Instale os capacitores ou outros dispositivos de correção de acordo com as especificações técnicas.

  4. Monitoramento Contínuo: Após a instalação, monitore o fator de potência regularmente para garantir que ele permaneça dentro dos limites desejados.

  5. Manutenção: Realize manutenções periódicas nos equipamentos de correção para garantir seu funcionamento adequado.

Conclusão

A correção do fator de potência é uma prática essencial para quem busca eficiência energética, redução de custos e melhoria na qualidade da energia elétrica. Ao entender os conceitos envolvidos e implementar as técnicas adequadas, é possível obter benefícios significativos tanto para o sistema elétrico quanto para o bolso do consumidor.

Se você está enfrentando problemas com um fator de potência baixo, considere realizar uma análise detalhada do seu sistema e investir em soluções de correção. A longo prazo, os ganhos em eficiência e economia certamente valerão a pena.


Este artigo foi desenvolvido para fornecer uma visão abrangente sobre a correção do fator de potência. Se você tiver dúvidas ou precisar de assistência técnica, não hesite em consultar um especialista em engenharia elétrica.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Localização de falhas em cabos

Algumas vezes em minha vida profissional me deparei com a difícil tarefa de encontrar defeitos em cabos com lances de alguns quilômetros sob a terra. Trata-se de uma tarefa árdua se feita por tentativa e erro ou mesmo ter que percorrer toda a extensão o cabo até encontrar. Hoje dispomos de aparatos que conseguem determinar com precisão a localização de um defeito em um cabo, entretanto esses aparatos são caros e difíceis de se manusear no campo.
Entretanto, essa tarefa já era feita no passado, mas  como era feito esse trabalho antigamente? Me fiz essa pergunta várias vezes, mas sempre deixava para lá pois não tinha ainda passado por uma real necessidade, até que em 2006 eu fazia uma ampliação na subestação principal da Bunge Fertilizantes em Araxá - MG, onde alguns quilômetros de cabos de 15 kV seriam lançados para atender uma nova demanda de energia que a fábrica naquele momento requeria. Depois de todo cabo lançado, chegava a hora de testar os cabos, com hipot preparado iniciamos o testes, até o penúltimo teste, quando tivemos uma triste surpresa, um dos cabos estava com baixa isolação, ao ponto de ser perigoso a energização do sistema com ele nessas condições.
Era necessário agora localizar o defeito e investigar sua causa. Tal tarefa me deixou perturbado, pois o prazo para entrega do serviço corria e eu não tinha ideia de como solucionar esse problema, foi quando me lembrei de alguém que poderia me ajudar, um grande mestre na Engenharia Elétrica com quem aprendi muito, o Engenheiro Osvaldo Tadao Maruki.
Tadao me orientou a pesquisar sobre as pontes de medição e seus vários arranjos e aplicações, especialmente uma, que usava um método chamado método de Varley, esta ultima será objeto de nosso estudo nesse artigo.

Teste

Teste

domingo, 20 de março de 2016

Energia Solar

Bom, depois de quase um ano sem fazer nenhuma postagem resolvi abordar um tema que tem se desenvolvido bastante e que acredito que será o nosso futuro energético, que são as fontes de energias alternativas e hoje abordaremos a energia solar.
Muitos me perguntam o que é exatamente a energia solar, hoje nesse "post" vou abordar o assunto de maneira mais genérica e iremos aprofundando o assunto nos próximos artigos.
A Energia Solar Fotovoltaica é a energia elétrica produzida a partir da conversão da radiação solar em outra forma de energia, geralmente, elétrica ou térmica. Em um primeiro momento a energia solar fotovoltaica foi utilizada apenas em locais remotos, sem acesso a rede elétrica (Off-grid), com auxilio de baterias. Atualmente, a maioria dos sistemas fotovoltaicos do mundo são conectados à rede (Grid Tie) e funcionam de forma integrada, trocando energia com a rede pública, uma espécie de banco onde podemos depositar o excedente produzido ao longo do dia e retirar em outro momento. Estes sistemas podem substituir as fontes já existentes e, quando produzem energia na própria unidade consumidora, são chamados de Geração Distribuída. No Brasil, existem muito poucos sistemas instalados conectados à rede, mesmo havendo um grande potencial energético. A queda nos preços dos painéis e a resolução Nº 482, da ANEEL, que foi revisada em dezembro de 2015 e entrou em vigor a partir de março de deste ano acelerou a procura e deve impulsionar ainda mais a adoção desta tecnologia. A Energia Solar é uma fonte limpa que traz vantagens ao meio ambiente, ao consumidor que pode reduzir ou até zerar sua conta de luz e também para toda a rede de eletricidade, já que a geração e o consumo no mesmo ponto aumenta a eficiência e reduz a necessidade de infraestrutura para transmissão e distribuição de energia. A vantagem da produção para auto-consumo é que o consumidor reduz o valor de sua conta de energia, que está carregada com até 50% de impostos e encargos. No Brasil, sistemas de até 100 kW são considerados micro-geração, o que faz com que a burocracia e exigências para conexão à rede elétrica sejam menores. Assim, as aplicações mais atrativas são para sistemas residenciais e comerciais com fornecimento de energia em baixa tensão.Para aqueles que pretendem instalar um sistema gerador de energia de micro ou mini geração distribuída a partir da energia solar, o sistema fotovoltaico Conectado ou Grid Tie precisa de alguns componentes básicos para garantir o funcionamento.

O Painel Solar, responsável pela captação da radiação solar é formado por várias células fotovoltaicas que usam o silício como matéria-prima. A quantidade de painéis solares varia de acordo com o consumo de energia. Para uma residência com consumo de 200kWh/mês são necessários de seis a oito painéis de 1,7 m² cada, por exemplo.

Já os Inversores transformam a energia elétrica vinda dos painéis solares em corrente alternada para ser usada na rede doméstica. Além disso, os inversores fazem o sincronismo da energia solar com a rede elétrica e o balanço entre a fonte solar e a energia da rede convencional.

Além destes componentes, uma estrutura de alumínio é responsável pela fixação dos painéis no telhado garantindo a inclinação no ângulo adequado para a melhor captação da luz solar.

Com a Resolução Normativa 687/2015 (que atualizou a RN 482/2012), publicada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que regulamenta a micro e mini produção de energia, proprietários de residências, comércio e indústria podem produzir sua própria energia. A maior novidade é que as concessionárias devem adequar seus medidores a um modelo que permita que a energia gerada e não consumida no local possa ser enviada à rede, para consumo em outro ponto, e gerar créditos para o consumidor na próxima fatura.


Nos próximos "posts" falaremos mais sobre a legislação e dimensionamento de sistemas fotovoltaicos.